No artigo que dediquei às contas dos operadores financeiros, referi, no final, que a sua gestão, em particular dos bancos, foi imprudente.
Tratando-se de uma afirmação ousada, quero tentar explicar em que me fundamento, no plano técnico, olhando “a posteriori” para o balanço e a demonstração de resultados consolidados dos operadores do sector financeiro, onde pesam essencialmente os bancos, únicas entidades autorizadas a recolher depósitos e que concentram a esmagadora parte do crédito concedido.
Não me refiro, nas palavras seguintes, aos gestores do BPN, BPP ou mesmo do BES, em que aos disparates de gestão se juntam "casos de polícia". Refiro-me aos outros, quase todos, incluindo a CGD, que acumulam prejuízos sucessivos de há anos a esta parte, em resultado não só da crise, mas também em consequência dos erros ou das imprudências de gestão cometidas no passado. Nem tudo é fruto da crise e há razões fortes para duvidar se pensámos bem quando olhávamos os gestores bancários como a elite da elite dos nossos gestores e lhes atribuíamos níveis de conhecimento, de serenidade e de rigor deontológico acima de qualquer desconfiança.
Não me refiro, nas palavras seguintes, aos gestores do BPN, BPP ou mesmo do BES, em que aos disparates de gestão se juntam "casos de polícia". Refiro-me aos outros, quase todos, incluindo a CGD, que acumulam prejuízos sucessivos de há anos a esta parte, em resultado não só da crise, mas também em consequência dos erros ou das imprudências de gestão cometidas no passado. Nem tudo é fruto da crise e há razões fortes para duvidar se pensámos bem quando olhávamos os gestores bancários como a elite da elite dos nossos gestores e lhes atribuíamos níveis de conhecimento, de serenidade e de rigor deontológico acima de qualquer desconfiança.
Um bom exercício passa por estabelecer as semelhanças e paralelismos que, numa ótica de exercício de gestão ou de “governance”, existem entre os bancos e qualquer outra empresa num qualquer sector de actividade, que situaria em três planos:
a) Da necessidade de preservar equilíbrios fundamentais no Balanço e encontrar a adequada estrutura de financiamento da actividade, particularmente da função investimento – importa encontrar o grau adequado de participação de capitais próprios no financiamento dos investimentos projectados e controlar o nível de endividamento e a sua relação com o crédito concedido;
b) Da definição dos programas de investimento mais adequados – há que maximizar o seu contributo para a melhoria das condições de exploração e para maximizar os resultados finais e reduzir os riscos de recuperação do investimento realizado; no caso dos operadores financeiros e dos bancos, em particular, deve considerar-se o crédito como um investimento que essas instituições realizam esperando rendimentos futuros compensadores. O mesmo é dizer que o crédito deve ser viável e rentável.
c) Ao nível comercial, procurando encontrar soluções de comercialização e promover produtos competitivos, na qualidade e no preço, que possam vingar no mercado e que satisfaçam efectivas necessidades dos clientes;
d) No plano da eficiência operacional, gerindo o “lay out” da organização e controlando os custos de forma adequada e em conformidade com a evolução do sector e da actividade, por forma a maximizar os interesses dos accionistas e o resultado final da exploração.
Nos bancos como em qualquer outra empresa, estes são os princípios indiscutíveis que devem orientar a gestão.
Ora, o que sucedeu nos últimos anos, na gestão dos operadores financeiros e dos bancos, em cada um dos planos atrás referidos?:
a) e b) - No financiamento do investimento das empresas é habitual e é uma regra saudável que os bancos exijam às empresas que participem com capital próprio à volta de 25% / 33% do investimento a realizar, por forma a assegurar, entre outros objectivos, um menor impacto dos custos associados ao financiamento na exploração normal das empresas. Está também entre as boas práticas a escolha de uma longevidade dos empréstimos adequada ao tempo de recuperação do investimento a realizar, por razões que são óbvias.
Ora, o que sucedeu no próprio seio da banca, foi a não observação desses princípios básicos. De facto, os operadores financeiros exigem às empresas, quando lhes concedem crédito, o cumprimento desses rácios, que todavia dispensaram para eles próprios quando “investiram” na concessão desse crédito, como se pode constatar no quadro seguinte:
Os bancos permitiram-se para o financiamento da sua própria actividade graus de alavancagem com capitais próprios inferiores aos que exigem às empresas, endividando-se em demasia e comprometendo com isso a sua própria sustentabilidade.
A imposição dos credores dos bancos, na expressão da Troika, foi a obrigação de aumentar os capitais próprios dos bancos e recuar o rácio “crédito/depósitos” dos níveis agregados de 1,5/1,6 para o intervalo 1,1/1,2 (ver gráfico seguinte) por forma a reduzir o endividamento (sobretudo externo, para maior desgraça do País) e a melhorar as condições de exploração dos bancos. Isto é, foi preciso a autoridade externa e o poder dos próprios credores do País e dos bancos para obrigar os gestores bancários portugueses a adoptar regras de gestão sustentável.
O forte crescimento do crédito nos primeiros anos deste século, sobretudo a particulares para a aquisição de habitação, obrigou os bancos a recorrerem a endividamento – sobretudo externo, contribuindo de forma relevante para o endividamento do país com o exterior e para a necessidade da política de austeridade dos últimos anos - rompendo equilíbrios importantes:
O forte crescimento do crédito nos primeiros anos deste século, sobretudo a particulares para a aquisição de habitação, obrigou os bancos a recorrerem a endividamento – sobretudo externo, contribuindo de forma relevante para o endividamento do país com o exterior e para a necessidade da política de austeridade dos últimos anos - rompendo equilíbrios importantes:
➢ Do rácio desejável de crédito sobre depósitos, aumentando o risco associado a ciclos de crise, como se veio a verificar;
➢ Do grau de cobertura do crédito concedido por capitais próprios, colocando problemas sérios de reembolso dos créditos/refinanciamentos obtidos e/ou da sua renovação, face à prolongada crise de liquidez internacional após 2008 a que se juntou a queda do ranking do País.
E foi preciso que os credores (do País e dos próprios bancos) viessem a impor-lhes exigências de reconstruir esses equilíbrios de balanço, as mesmas que os bancos exigem às empresas a quem concedem crédito, mas que se dispensaram de cumprir eles próprios na sua gestão.
Conhecida é também a situação de desfasamento desfavorável entre a maturidade média do crédito
concedido pelos bancos, muito influenciada pelos prazos muito longos do crédito à habitação e a maturidade dos seus próprios empréstimos obtidos, situação que não teria qualquer problema numa conjuntura internacional de excesso de liquidez, mas que se torna num pesado ónus de gestão em fase de crise prolongada como esta que, iniciada em 2008, quase atinge uma década.
Em resumo e sobre este ponto, os gestores dos nossos bancos correram riscos excessivos com a não observação de equilíbrios importantes do seu Balanço e endividaram-se em excesso, face à incapacidade de antever a crise profunda surgida em 2007/2008, contribuindo também para aumentar a dívida externa do País, que é a principal causa da política de austeridade.
b) e c) - Considerando a concessão do crédito como a operação comercial em que os bancos investem em troca de rendimentos futuros compensadores, justifica-se a pergunta: “os gestores bancários foram responsáveis na avaliação do risco presente no crédito concedido?”.
No caso das empresas, e em comparação sintética, os seus accionistas e gestores estimam o mercado, analisam as características dos seus concorrentes e dos produtos (qualidade técnica e preço) que eles vendem e avaliam a capacidade de pagamento dos seus clientes, tudo com vista a reduzir o risco do investimento e das suas operações comerciais.
Ora, o que sucedeu nos bancos (e nos demais operadores financeiros mais especializados em crédito, a particulares e a empresas), foi:
➢ A incapacidade de ler os sinais para que tantos especialistas alertavam de existência de uma “economia financeira global” que era múltiplo elevado da economia real, fazendo prever a ocorrência de crises mundiais de liquidez de duração superior aos habituais ciclos de baixa que alternadamente com ciclos de alta caracterizaram a evolução económica do mundo desde os anos 60 e 70 do século passado, numa trajectória de progressivo "enriquecimento " dos países e de melhoria do bem estar das suas populações, muito à custa do excessivo crescimento do crédito.


➢ A prática de políticas comerciais que significavam uma verdadeira corrida ao crédito, em condições de risco excessivo, como aconteceu prolongadamente no crédito à habitação – o principal motor do crescimento do crédito – com os financiamentos a ultrapassarem frequentemente o valor dos activos a adquirir;
➢ A aposta na obtenção de garantias colaterais como forma de reduzir o risco de crédito (hipotecas, avales, fianças, seguros de crédito, seguros de vida), desviando assim a exigência de uma avaliação mais rigorosa do cliente e da operação de crédito – em consequência disso, os bancos estão hoje cheios de património fundiário e imobiliário de que não conseguem desfazer-se, com valores diminuídos que contribuem para o incremento das suas imparidades e pesam drasticamente nos seus balanços;
➢ Por fim e não menos relevante, o investimento na “construção” de uma rede comercial de empresas especializadas em determinados nichos de mercado (crédito directo, leasings, factorings) e de balcões, constituindo pesadas estruturas de custos que nos últimos anos se procuram reduzir, no reconhecimento do erro cometido.
d) A evolução das Contas consolidadas dos operadores financeiros mostra, a partir de 2010, uma incapacidade de adaptação dos custos ao ritmo de queda dos proveitos, fruto da rigidez presente em estruturas produtivas muito pesadas (como se pode ver no quadro seguinte), criadas, como se viu, ainda no século passado em consequência de uma estratégia de expansão que se revelou pouco fundamentada e prudente.
Com maior detalhe, quem estiver interessado pode constatar como a generalidade dos custos não acompanhou o ritmo de queda dos proveitos e da margem financeira, evidenciando uma trajectória de agravamento das condições de exploração dos operadores financeiros e dificultando assim as expectativas de recuperação futura e de regresso dos operadores financeiros e dos bancos, em particular, aos lucros.
Particularmente interessante, o montante das comissões em todo o sector cobre sistematicamente mais de 80% dos custos de pessoal, o que dá uma ideia da perversidade presente no negócio financeiro e nos modelos económicos de exploração no sector.
| 2007 | 2008 | 2009 | 2010 | 2011 | 2012 | 2013 | 2014 | |
| Despesas com Pessoal | 4 057 | 4 192 | 4 220 | 4 350 | 4 382 | 4 009 | 3 886 | 3 635 |
| Receitas de Comissões | 3 221 | 3 349 | 3 428 | 3 801 | 3 715 | 3 702 | 3 398 | 3 060 |
| Comissões / Despesas com Pessoal | 79,4% | 79,9% | 81,2% | 87,4% | 84,8% | 92,3% | 87,4% | 84,2% |
Em síntese, a gestão dos operadores financeiros e dos bancos, em particular, pecou por:
- ter subestimado os alertas de ocorrência de crise e os riscos associados à histórica sucessão de ciclos no desenvolvimento das economias;
- ter embarcado e facilitado a concessão de empréstimos, sobretudo a particulares, em condições de risco excessivo quanto à qualidade dos mutuários e à sua solidez, sobretudo em fase de eventual menor prosperidade;
- não ter respeitado desejáveis equilíbrios de balanço, quer ao nível dos adequados ratios de capital quer no plano do ratio "crédito/depósitos", neste caso obrigando ao recurso excessivo de endividamento externo, face vá fraqueza da poupança nacional;
- não ter sido capaz de realizar o rápido e atempado ajustamento dos custos à queda dos proveitos.
- ter subestimado os alertas de ocorrência de crise e os riscos associados à histórica sucessão de ciclos no desenvolvimento das economias;
- ter embarcado e facilitado a concessão de empréstimos, sobretudo a particulares, em condições de risco excessivo quanto à qualidade dos mutuários e à sua solidez, sobretudo em fase de eventual menor prosperidade;
- não ter respeitado desejáveis equilíbrios de balanço, quer ao nível dos adequados ratios de capital quer no plano do ratio "crédito/depósitos", neste caso obrigando ao recurso excessivo de endividamento externo, face vá fraqueza da poupança nacional;
- não ter sido capaz de realizar o rápido e atempado ajustamento dos custos à queda dos proveitos.




