quarta-feira, 13 de julho de 2016

A CGD NA BERLINDA ... EXIGE-SE CALMA, RIGOR E TRANSPARÊNCIA, DISPENSAM-SE A ESPECULAÇÃO E AS ANÁLISES POLÍTICAS PERVERSAS !!!

A CGD está na berlinda ... anunciam-se comissões de inquérito e auditorias, atrasa-se irresponsavelmente a nomeação de nova administração, deturpam-se as palavras já de si infelizes do Ministro a referir um desvio de 3 mil milhões no volume de negócios da CGD, mas não se vê quem faça uma análise serena, tranquila, das contas e da evolução da actividade da CGD nos últimos anos, o que poderia explicar a situação actual e evitar a polémica e o fogo partidário cruzado.
Disso é que a CGD - como qualquer outro banco - não precisa!!! 
Procurarei seguir esse caminho, na forma sintética que um artigo deste tipo possibilita. É possível avaliar, a partir dos Relatórios e Contas, a evolução da CGD individualmente (deixando de fora a análise do Grupo CGD), para tentar compreender e distinguir aquilo que é estrutural e alheio à gestão da CGD e o que é/foi a margem de manobra da administração - esta distinção parece fundamental para ajudar a centrar o debate político no ângulo próprio e para abrir caminho para as soluções de política e de "governação" da CGD mais adequadas à "empresa e à conjuntura.
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Em primeiro lugar, a degradação das contas verificada nos últimos anos tem uma explicação que no essencial é exterior à qualidade da gestão, porque resulta sobretudo do prolongado ciclo económico recessivo e da evolução desfavorável das características dominantes do negócio bancário durante esse período.
De facto, o volume de negócios da CGD (entendida individualmente e não enquanto Grupo CGD) tem tido a evolução decrescente que se ilustra (em milhões de euros):
2008 2012 2013 2014 2015
Crédito a Clientes 64007 64002 59557 55201 53179
Proveitos Totais 9012 5825 3698 3355 3602
Juros Recebidos 8052 4811 2994 2694 2241
 
Em sete anos, o volume de crédito concedido a clientes caiu 17% e os Proveitos são em 2015 40% do valor verificado em 2008.
Em particular, os juros recebidos em consequência da actividade principal de concessão de crédito não chegam em 2015 a 30% do valor registado em 2008. Para tal, contribuiu também a queda acentuada da taxa de juro média implícita no crédito concedido, que baixou de 12,6% em 2008 para 4,2% em 2015.
Nesta realidade, pouco poderiam fazer as sucessivas administrações da CGD durante esse período.
Fruto dessa queda na concessão de crédito e da redução dos juros recebidos, a estrutura de Proveitos da CGD alterou-se significativamente, com os juros recebidos a caírem de 89,3% do total dos Proveitos em 2008 para 62,2% em 2015.
Bastam estes indicadores para sinalizar a alteração profundíssima verificada na evolução e nas características do negócio bancário, com influência obvia nos resultados finais da exploração.
Ao mesmo tempo e por outro lado, os Custos de funcionamento têm uma rigidez superior, sendo difícil assegurar uma evolução paralela à queda dos Proveitos, como se pode ver no Gráfico seguinte, o que contribuiu para agravar as consequências negativas resultantes da trajectória desfavorável da economia.



De facto, durante esse período, enquanto os Proveitos evidenciaram a queda já assinalada de cerca de 40%, os custos de funcionamento com "fornecimentos e serviços externos" reduziram 17% e os custos com "pessoal" apenas 6%, contribuindo para agudizar a crise de resultados da CGD que acumulou cerca de 2,1 mil milhões de euros no quadriénio 2012-2015:

                                                                       1998        2012          2013        2014       2015
 (Prejuízos) / Lucros (milhões de euros)         484         (394)         (576)       (1139)       12

Dado a reter que e não abona as sucessivas administrações da CGD é a evolução comparada dos encargos com pessoal e do números de trabalhadores efectivos, com particular realce para o ano de 2015, em que a redução homóloga de cerca de 5% do número de trabalhadores (menos 448 efectivos do que em 2014) não impediu o agravamento desses custos em 15%, porventura em razão dos montantes indemnizatórios praticados com essa redução do quadro de pessoal.
Portanto, à queda brutal da actividade económica, a provocar uma redução igualmente forte dos Proveitos, juntou-se uma gestão que não foi capaz de acelerar a necessária redução dos custos operacionais, que sempre manifestam uma elevada rigidez estrutural, no caso agravada pela natureza pública da CGD.
Em consequência, a estrutura de custos registou uma progressiva degradação do seu equilíbrio desejável, com os custos de pessoal e com fornecimentos e serviços externos a assumirem um peso crescente nos Proveitos, facto que deveria ter sido possível traduzir em adequadas políticas internas de redução de custos, em compensação da forte queda dos proveitos.

  
 
 
 
Aspecto importante a analisar prende-se com a avaliação comparada do crédito e dos depósitos, sobretudo quando se olha para afirmações publicamente repetidas de que a CGD necessita de ser fortemente capitalizada (com números que vão dos 2 aos 5 mil milhões de euros), ao mesmo tempo que se repetem as orientações da Troika de que é necessário reduzir o ratio "crédito/depósitos" praticado na banca portuguesa.
Porém, a evolução que se obtém com a observação do Balanço da CGD não coincide nem confirma essas teses e essas orientações.
 
 
 
De facto, a CGD não tem acusado problemas de liquidez nem de solvabilidade (que se mantém em níveis, entre 11% a 13% e que vem cumprindo com as directivas de Basileia) e desde 2008 que revela ratios de conversão de depósitos em capital que se podem considerar bastante cómodos - pelo contrário, poderíamos ser levados a acusar a CGD e as suas administrações de não colocarem os recursos disponíveis ao serviço do fomento da economia nacional, se não se conhecesse uma razão plausível de explicação que é a queda também brutal do investimento nacional na última década.
Tão pouco tem situações de "crédito mal parado" tão graves como as de outros bancos, com o rácio "crédito vencido sobre crédito total" a passar de 2,4% em 2008 para 7,7% e 7,6% , respectivamente, em 2014 e em 2015, ao mesmo tempo que o volume de imparidades atingia cerca de 5,2 mil milhões de euros nestes dois últimos anos, contra 610 mil euros em 2008.
O problema maior parece estar justamente na evolução das imparidades e na sua comparação com os níveis de capitais próprios, cabendo aqui, sim,  a avaliação e auditoria à qualidade das decisões tomadas na concessão de crédito e na obtenção das respectivas garantias:
 
                                                                            2008         2014       2015       
Imparidades (em milhares de euros)                   610          5 230      5 198                      
Capitais Próprios (em milhares de euros)         4 590         3 777      3 807
    
Em resumo, a difícil situação actual da CGD é o resultado, sobretudo e ao mesmo tempo, da crise económica e financeira do após 2007/2008 e da insuficiência do accionista de realizar atempados aumentos de capital durante esse período crítico.
Não sendo desprezíveis os impactos negativos, no balanço e nas contas de exploração, resultantes da insuficiência de gestão no plano do controlo dos custos operacionais (que, particularmente ao nível do pessoal, poderão ter contribuído para manter a paz social dentro do banco) ou na execução de uma política comercialmente agressiva de captação de crédito (saliente-se de novo que a carteira de créditos a clientes caiu 11 mil milhões de euros, cerca de 17%, entre 2008 e 2015) serão sobretudo aquelas razões que estão na origem da difícil situação actual da CGD.
Mas não se vislumbra facilmente que sejam necessários mais 4 ou 5 mil milhões de euros de novo esforço do Estado, leia-se, dos contribuintes, a somar aos 900 milhões já realizados há poucos anos atrás, como vem sendo atirado para a opinião pública.
Nesta matéria exige-se rigor, para não repercutir (uma vez mais) sobre os contribuintes mais do que for realmente necessário. Que a CGD tem de ser capitalizada, todo o país concorda. Mas exige-se que o esforço que se venha a impor de novo ao universo dos contribuintes, já tão castigados por um Estado gastador e com baixa performance, não vá para além do estritamente necessário. E isso deve ser determinado com um rigor e uma independência que deve estar para além da disputa política e/ou partidária e ser sujeito e explicado, com transparência e suficientemente detalhe, ao crivo do Parlamento e da opinião pública.