quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A PROPÓSITO DA POLÉMICA SOBRE OS SALÁRIOS DA NOVA ADMINISTRAÇÃO DA CGD ...

Quero começar por referir que hesitei bastante em dar a minha voz a esta questão, pensando se não estaria a pôr mais "lenha na fogueira". É que acho que há muita demagogia e muito jogo partidário nesta polémica.
Porém, isto é tudo o que a CGD não precisa neste momento.
Trata-se do banco público, a maior instituição financeira de Portugal, o símbolo durante muitos anos da solidez do sistema financeiro, o reduto último da confiança dos consumidores financeiros no sistema financeiro, que atravessa uma das fases mais difíceis da sua história mais recente (refiro-me às últimas décadas), como tentei mostrar num anterior artigo neste blog. O que a CGD e a sua nova administração precisam é da confiança dos particulares e dos agentes económicos e de concentrarem todas as energias na tarefa exigente de recuperar a eficiência económica da instituição.
Evidentemente que esta matéria teve todos os ingredientes para se tornar polémica diária. Por uma lado, foi a tutela que, nos planos institucional e político e ao nível externo, conduziu pessimamente  todo o processo, com a dupla agravante de não ter salvaguardado o devido respeito pela equipa cessante e de ter criado um espírito "sebastianista" à volta da nova administração. Por outro, é a nova equipa nomeada - que acho que é de grande qualidade - que se pôs a jeito, aceitando essa colagem e propondo-se uma dimensão e uma composição que só podiam originar críticas, ainda por cima depois de a história nos ter mostrado que muitos gestores bancários puseram os seus interesses pessoais acima dos interesses do país ou dos clientes dos bancos que dirigiam.
E o que é mais grave é que assim, e ao mesmo tempo, não só não se discutem as questões verdadeiramente essenciais que deveriam ser as relacionadas com o conteúdo do plano de recuperação da CGD elaborado pela nova administração (chegou-se ao ponto de acusar a nova administração de ter acesso privilegiado e inaceitável a informação, como se alguém pudesse apresentar qualquer plano de recuperação empresarial sem dispor de informação rigorosa e qualificada para o efeito), como ainda por cima se cria o pior clima de desconfiança à volta da nova administração.
Há que lembrar que o desafio desta administração da CGD - ou de outra qualquer - é tremendo, bastando listar objectivos vitais:
- recuperar a eficiência económica da "empresa", num ciclo prolongado de queda do negócio bancário e da sua rentabilidade;
- recuperar a maior fatia possível de "crédito mal parado", sanar imparidades e "racionalizar" o melhor que for possível o património imobiliário não afecto à actividade;
- aumentar o volume de "bom" crédito concedido e melhorar o ratio "depósitos / crédito de clientes";
- racionalizar e reduzir custos estruturais, particularmente de pessoal;
- melhorar a performance da actividade internacional da CGD e das actividades fora do "core business" do banco.

É este o enorme desafio que o Grupo CGD e a sua principal entidade, o banco CGD, têm pela frente. Por isso se compreende que o Governo tenha procurado escolher os gestores que considerou mais capazes, pela sua competência, pela sua experiência e ... num momento de crise de confiança, pela sua credibilidade. Como se compreende que, tratando-se do "banco de todos nós" e na conjuntura de crise bancária actual, o que tem de ser evitado é agravar o peso e as dificuldades que um desafio tão tremendo já contém em si próprio ou criar um clima  de suspeita à volta da credibilidade dos gestores ou ainda minar a confiança dos clientes que é tão vitalmente necessária nesta fase de recuperação da performance da CGD.

Mas, também não resisto a comentar que tudo isto poderia ter sido evitado, se parte da remuneração dos gestores da CGD tivesse ficado ligada à realização de objectivos, aqueles que identifiquei ou outros que a tutela viesse a considerar relevantes. O bom senso e algum "realismo" político a isso deveriam ter conduzido ... não sendo esse o caminho, impõe-se acreditar e ter confiança.
E os interesses do país e da CGD, que não devemos esquecer que se sobrepõem a tudo o mais, a isso aconselham.