A PROPÓSITO DO WEB SUMMIT, DE TRUMP E DE OUTRAS MATÉRIAS RELACIONADAS ....
mas pode dizer-se que existe algum tipo de relação que não seja a que coloca em pontos diametralmente opostos uma coisa e outra, sendo disso prova as repetidas manifestações de repúdio do novo presidente dos EUA por cidadãos americanos e doutras nacionalidades presentes no web summit? Há ponto de contacto entre um universo vanguardista de jovens empreendedores, intrinsecamente articulados e dependentes de um mundo globalizado e fluido nas relações entre povos, intelectualmente privilegiados e parecendo dotados de valores éticos elevados, e um presidente que se afirma protecionista, defensor do fecho de fronteiras e da proibição de entrada de emigrantes, capaz de distinguir entre géneros e culpabilizar comportamentos e vivências globalmente aceites, e que ao longo de meses de campanha nunca mostrou uma ideia ou um pensamento estratégico sobre o futuro do país mundialmente dominante a cuja liderança se candidatava?
Pois parece que não ... não obstante, são ambos produtos da mesma sociedade e coexistem no mesmo tempo. Uns são o que de mais inovador existe na economia mundial hoje em dia e são uma permanente porta aberta para a criatividade, a mudança e a renovação das estruturas produtivas. Outro é um expoente de actividades onde a especulação, a esperteza e os jogos fiscais predominam.
Pode o novo líder menosprezar aqueles que são agentes de renovação e estruturantes de novas formações económicas e sociais e que podem influenciar decisivamente o papel de cada país no mundo e que, por ironia, não têm necessariamente "solo pátrio", podendo instalar-se em qualquer lado? - não, evidentemente que não pode.
Mas, por alguma razão, as empresas mundialmente dominantes no que são as novas tecnologias nasceram e continuam a ter origem principal nos países ocidentais e em especial nos EUA. E, a meu ver, estarão "condenadas" a aproveitar as políticas futuras do novo líder, se, como Sanders já veio declarar prometendo o seu apoio e de outros progressistas, ele vier a promover as políticas promotoras de 25 milhões de novos empregos e de melhores condições de vida dos trabalhadores. "Wait and see", é divisa prudente em matéria de política económica, orçamental e financeira ... no resto, parece haver consenso mundial de desaprovação.
E este é o ponto, paradoxal, a que quero chegar. Na actual conjuntura económica e neste estrito plano, após anos de destruição do tecido produtivo, Trump teve um discurso mais progressista e de ruptura (com excepção do que respeita ao Obamacare) do que Hillary Clinton e por isso, apesar da inaceitável mensagem política, chegou onde chegou, ao coração de muitos milhões de americanos afectados pela prolongada crise, e tem, nesse plano, a promessa de colaboração de Sanders. Por outro lado, os jovens empreendedores do universo web summit terão tanto mais a ganhar quanto maior for o crescimento global futuro da economia americana.
Trump ganhou, ironicamente, após a governação democrata ter conduzido com sucesso os EUA no período de maior crise económica e financeira dos últimos 60 anos. Entre 2010 e 2015:
- a taxa de desemprego caiu de 9,6% para 5,3%;
- a taxa de pobreza reduziu de 15,1% para 13,5%;
- o rendimento médio per capita subiu 5,5%, de 53 568 dólares para 56 516 dólares;
- a economia mostrou uma trajectória de redução de inflação, que foi de 0,1% em 2015, contra 1,6 % em 2010 e 3,2% em 2011;
- o PIB manteve uma taxa de crescimento anual média de cerca de 2%.
- o défice orçamental contraiu de 1 635 biliões de dólares em 2010 para 667 em 2015, fruto de uma redução da despesa pública que, em percentagem do PIB, desceu de 40% em 2010 para 35,7% em 2015, muito por força do corte nas despesas militares, que de 698 biliões de dólares em 2010 (na década anterior, tinham mais do que duplicado, face ao valor de 302 biliões dólares gastos em 2000) passaram para 596 biliões em 2015, permanecendo a "dívida nacional" como a variável que registou a evolução menos positiva.
Durante a última década, muitas empresas (GE, EWS, GOOGLE, a própria LENOVO) abandonaram as suas unidades fabris na China, para onde haviam deslocalizado parcialmente a actividade, e regressaram aos EUA, em resultado do endurecimento da legislação laboral, da frequência de conflitos laborais, do agravamento de salários e de outros custos da mão-de-obra, da rarefação de pessoal qualificado, o que é um factor positivo adicional da evolução económica dos EUA.
Todavia, as mensagens do novo Presidente dos EUA tiveram eco, talvez porque muitos milhões de americanos apreciaram positivamente o discurso retrógrado mas de ruptura, certamente porque muitos milhões de americanos não beneficiaram da positiva evolução económica que se verificou - por um lado, 53% dos desempregados são brancos, (20% são negros e outros 20% são hispânicos) e, por outro lado, a taxa de pobreza continua muito elevada.
Ao contrário, em Portugal, a evolução económica foi de mal a pior e a gestão pública só agravou as condições de saída da crise, com a crescente dificuldade de financiamento da economia como um todo, a excessiva concentração dos recursos escassos no financiamento da dívida pública, a inexistência de reformas fundamentais e a impossibilidade de prosseguir uma estratégia consistente de desenvolvimento e recuperação económica.
A evolução macroeconómica de Portugal nos últimos anos está expressa no gráfico seguinte:
Trump ganhou, ironicamente, após a governação democrata ter conduzido com sucesso os EUA no período de maior crise económica e financeira dos últimos 60 anos. Entre 2010 e 2015:
- a taxa de desemprego caiu de 9,6% para 5,3%;
- a taxa de pobreza reduziu de 15,1% para 13,5%;
- o rendimento médio per capita subiu 5,5%, de 53 568 dólares para 56 516 dólares;
- a economia mostrou uma trajectória de redução de inflação, que foi de 0,1% em 2015, contra 1,6 % em 2010 e 3,2% em 2011;
- o PIB manteve uma taxa de crescimento anual média de cerca de 2%.
- o défice orçamental contraiu de 1 635 biliões de dólares em 2010 para 667 em 2015, fruto de uma redução da despesa pública que, em percentagem do PIB, desceu de 40% em 2010 para 35,7% em 2015, muito por força do corte nas despesas militares, que de 698 biliões de dólares em 2010 (na década anterior, tinham mais do que duplicado, face ao valor de 302 biliões dólares gastos em 2000) passaram para 596 biliões em 2015, permanecendo a "dívida nacional" como a variável que registou a evolução menos positiva.
Durante a última década, muitas empresas (GE, EWS, GOOGLE, a própria LENOVO) abandonaram as suas unidades fabris na China, para onde haviam deslocalizado parcialmente a actividade, e regressaram aos EUA, em resultado do endurecimento da legislação laboral, da frequência de conflitos laborais, do agravamento de salários e de outros custos da mão-de-obra, da rarefação de pessoal qualificado, o que é um factor positivo adicional da evolução económica dos EUA.
Todavia, as mensagens do novo Presidente dos EUA tiveram eco, talvez porque muitos milhões de americanos apreciaram positivamente o discurso retrógrado mas de ruptura, certamente porque muitos milhões de americanos não beneficiaram da positiva evolução económica que se verificou - por um lado, 53% dos desempregados são brancos, (20% são negros e outros 20% são hispânicos) e, por outro lado, a taxa de pobreza continua muito elevada.
Ao contrário, em Portugal, a evolução económica foi de mal a pior e a gestão pública só agravou as condições de saída da crise, com a crescente dificuldade de financiamento da economia como um todo, a excessiva concentração dos recursos escassos no financiamento da dívida pública, a inexistência de reformas fundamentais e a impossibilidade de prosseguir uma estratégia consistente de desenvolvimento e recuperação económica.
A evolução macroeconómica de Portugal nos últimos anos está expressa no gráfico seguinte:
Entre 2007 e 2015, o PIB em Portugal cresceu menos de 0,3% em média anual e, apesar do constante aumento desde 2012, ainda não atingiu o valor nominal de 2010, ao mesmo tempo que a melhoria da distribuição de rendimentos continua a ser um problema sério, com o empobrecimento da classe média e a evolução desfavorável dos rendimentos reais das famílias e das pensões a agravar a diferenciação de nível de vida para a média europeia.
Durante esta prolongada crise, a destruição do tecido produtivo foi brutal, com:
- a queda do contributo das empresas para o PIB a cair de cerca de 49% em 2007 para 42,5% em 2012;
- entre 2008 e 2012, desapareceram 152 mil empresas, uma média de 38 mil empresas por ano;
- com esta destruição de unidades produtivas, nesse período:
- o volume de negócios global do universo das empresas reduziu em 30 mil milhões de euros;
- o contributo das empresas para o PIB caiu cerca de 12,7 mil milhões de euros, a uma média anual de 3,5 mil milhões de euros, cerca de 2% do PIB em cada ano;
- perderam-se 436 mil postos de trabalho, uma média de 109 mil por ano;
- e, finalmente, o investimento caiu para menos de metade, de cerca de 22/24 mil milhões de euros (respectivamente, em 2007 e 2008) para 10,7 mil milhões em 2012.
Não se dispõem de números seguros para os anos mais recentes, mas é óbvio que eles não permitiram virar a página. Para além do argumento habitual de que esta crise permitiu a "limpeza" de um sem número de empresas sem viabilidade, a verdade é que aqueles números são esmagadores e apontam para uma destruição brutal do tecido produtivo e da sua densidade e para uma queda real do emprego e, inevitavelmente, dos rendimentos de numerosas famílias.
O Web Summit trouxe uma luz de esperança e promete a criação de empresas modernas, em sectores de vanguarda, ocupando gente qualificada e operando no mercado global. Dessa modernidade, resultarão seguramente benefícios estimulantes para outros sectores de actividade, porventura mais tradicionais.
Mas por melhor que seja o resultado a esperar, ele não vai compensar sequer uma pequena parte da destruição sofrida. Importa olhar para a economia tradicional e aproveitar as potencialidades existentes.
Na agricultura, um dos sectores que melhor escapou à derrocada de actividade atrás assinalada (com particular relevo para o litoral centro e norte do país, o vale do Tejo e a imensa área beneficiada pelo Alqueva, onde se vêm registando ganhos assinaláveis de produtividade que estimulam a "cobiça" de investidores de outras nacionalidades), há que colar a intervenção estimulante de políticas públicas ao desenvolvimento observado em muitos produtos, a justificarem o planeamento de investimentos visando a sua transformação e a obtenção de valor adicional;
Na indústria, recuperando a capacidade de desenvolvimento de políticas sectoriais específicas e de promoção de produtos com potencialidade exportadora - os sucessos obtidos devem-se mais e sobretudo à iniciativa privada, que o Estado vai acompanhando de modo complementar.
Há que definir programas consistentes de apoio às pequenas e médias empresas, um universo que saiu do léxico diário e das preocupações comuns da política económica, mas que constitui o cimento aglutinador da economia e da sociedade.
Há que preparar programas de capitalização das empresas, devastadas financeiramente pela crise, e sofrendo com a prioridade do sector financeiro a ser concedida ao Estado, desviando recursos excessivamente aplicados na aquisição de dívida pública.
Há que ... sobretudo, não adormecer no embalo promissor do "web summit" ou de outros sucessos promissores de uma economia moderna e mais desenvolvida. Há um universo de empresas e um mundo laboral destruídos e há uma classe média devastada pela quebra de rendimentos e há que enfrentar isso com políticas sérias e consistentes ... para que não venha a existir um líder populista e intelectualmente fraco em Portugal.
