A novela do NOVO BANCO merecia outro tratamento informativo, porventura sob a forma de uma telenovela televisiva diária ... existe material suficiente para uma abordagem desse tipo ... mas falta informação detalhada verdadeiramente interessante.
As perguntas que talvez assaltem muita gente têm a ver com a dificuldade de vender o NOVO BANCO ... então a actividade bancária não é um bom negócio? Não existe nenhum banco interessado em comprar o terceiro maior banco do país e com larga implantação no universo das pequenas e médias empresas, depois de, durante anos, termos ouvido insistentemente dizer que a fusão e a concentração de bancos era um caminho inevitável e essencial para a afirmação de operadores financeiros com escala competitiva? Será que o NOVO BANCO está assim tão mal e, portanto, a sua aquisição não interessa a ninguém ... a menos que o Estado esteja disposto a cobrir com garantias o risco associado à sua aquisição ou que dispense garantias e abdique quase totalmente do que já investiu na sua sobrevivência até agora ou, ainda e mesmo, que pague por cima?
Bem, a verdade é que, como já tive oportunidade de referir em artigo anterior, a actividade bancária não é, actualmente, .... um bom negócio - para isso, contribuem:
- a prolongada crise que tem demolido os dois pilares de base da indústria financeira, quer a capacidade de poupança que gera os depósitos, quer o investimento e o crescimento da actividade económica que provocam o incremento do crédito,
- as políticas de austeridade e controlo da inflação que levaram à redução das taxas de juro para os níveis mais baixos das últimas décadas e durante um ciclo muito prolongado,
- o estreitamento das margens financeiras da actividade,
- a existência de estruturas empresariais bancárias demasiado caras para a realidade económica actual, fruto da aposta cega dos gestores bancários que, esquecidos da teoria dos ciclos historicamente comprovada, embarcaram em estratégias de crescimento e de financiamento da actividade perigosamente letais, como agora se confirma, agravada com a dificuldade em vencer a rigidez das estruturas criadas e em as adequar a tempo ao ritmo recessivo da actividade;
- as políticas remuneratórias dos gestores e dos accionistas no passado, mais preocupados em distribuir dividendos do que em capitalizar os seus bancos e de os preparar para ciclos menos favoráveis.
O NOVO BANCO é um espelho de tudo isso, com a agravante de ter continuado com políticas de expansão estrutural já após 2008 e o início da crise financeira mundial, como se pode observar pelos números seguintes:
2005 2007 2008 2010 2011 2015 2016
Nº de Trabalhadores .. 7051 7276 7762 7992 7311 6325
Nº de Balcões 639 757 803 828 801 635 606.
Nos cinco anos entre 2006 e 2010, o BES distribuiu aos seus accionistas, acumuladamente, cerca 1025 milhões de euros de dividendos, que muito ajudariam a atenuar o ciclo de prejuízos se tivessem sido levados, total ou parcialmente, a reforçar os capitais próprios do banco.
Mas quanto vale hoje em dia o banco herdado do BES? Evidentemente, sem se conhecer com rigor a qualidade e o risco dos seus activos e dos seus passivos, é difícil - mas, atente-se aos números publicados nos respectivos relatórios de contas:
- a actividade em 2015/2016 regressou a níveis próximos dos verificados em 2005, mas refletindo uma queda superior a 30% no Activo Total e no Crédito a Clientes, em relação ao pico de 2008-2010;
- os Proveitos resultantes de juros recebidos sofrem uma queda brutal, em resultado das baixas taxas de juro e do incumprimento associado ao "crédito malparado", significando em 2015/2016 menos de 40% dos níveis atingidos em 2008-2010;
- regressando em 2015/2016 a patamares de actividade próximos dos verificados dez anos antes, em 2005, o BES/NOVO BANCO perde quase 900 milhões de euros de proveitos, dos quais cerca de 600 milhões de euros em juros recebidos, o que dá bem ideia da queda da rentabilidade da actividade creditícia, fruto da referida redução das taxas de juro e da prolongada crise que provocou o encerramento de dezenas de milhares de empresas;
- a actividade do BES/NOVO BANCO foi ainda e também fortemente afectada pela queda da sua imagem de banco credível e fiável, num processo de destruição do banco existente - e que praticamente baniu da estrutura produtiva e social do país um dos seus grupos familiares mais antigos e poderosos, internacionalizado e com grande influência na produção nacional e no emprego - com consequências bem visíveis na redução dos depósitos e aplicações de clientes e da procura de operações de crédito;
- a degradação das condições de exercício da actividade do BES/NOVO BANCO - resultante em primeiro lugar da má gestão, de que são exemplos mais evidentes a política de crédito excessiva (nos anos 2009-2011, o rácio crédito/depósitos andou no intervalo 170% / 180%) e pouco rigorosa (com excesso de exposição a empresas do grupo e avaliação no geral pouco criteriosa) e a crescente canalização de recursos dos clientes para aplicações de risco elevado e duvidosa segurança, em segundo lugar do prolongado ciclo económico depressivo que dinamitou o universo empresarial das pequenas e médias empresas onde o BES tinha forte expressão, em terceiro lugar das próprias políticas de austeridade e de acentuado cariz monetarista que, pondo o controlo da inflação como critério fundamental, trouxeram as taxas de juro para os níveis mais baixos dos últimos três séculos, reduzindo com isso drasticamente as condições do negócio bancário - tudo expresso na queda da rentabilidade do banco, como se demonstra adiante;
- no caso do BES / NOVO BANCO e em grande parte em consequência da influência conjunta e simultânea desses factores, a rentabilidade do banco acusa uma tendência imparável de queda nos últimos anos, que será difícil reverter por completo nos anos mais imediatos - tal só seria possível em condições excepcionais e de difícil ocorrência: se o banco fosse fortemente capitalizado, se o investimento recuperasse e o banco voltasse a ter uma imagem e uma posição preponderantes no mercado, se as taxas de juro no crédito subissem entre 2 a 3 pontos percentuais, se as condições da economia permitissem, ao mesmo tempo, melhorar o risco associado ao crédito actual e recuperar parte importante do crédito vencido, se fosse possível manter uma trajectória de redução dos custos de estrutura operacional, se ..., se ...;
- de facto, à realidade descrita soma-se a impossibilidade de adequar internamente e em tempo a evolução dos custos operativos à queda de actividade e à degradação das condições de exercício de actividade, o que conduziu ao agravamento da rentabilidade do banco, expressa nos indicadores contantes do quadro seguinte:
Temos, em resumo, um banco à venda que regista queda de produtividade e de rentabilidade, que evidencia uma trajectória de queda de activos e de degradação de imagem, que acumula prejuízos significativos nos últimos anos, perdeu a sua estrutura accionista dominante e acusa fortes carências de capitalização (parcialmente compensadas durante este tempo à custa da intervenção estatal) e que não beneficia de uma conjuntura favorável e potenciadora de condições de exploração favoráveis.
Que se pode esperar? Evidentemente, só se podem esperar dificuldades de todo o tipo. Dificuldades em encontrar compradores do "ramo", num momento em que o negócio bancário é menos interessante, o que por outro lado aumenta o risco de aparecimento de ofertas menos interessantes. Dificuldades em obter um bom preço, o que pode comprometer a recuperação do esforço financeiro já realizado pelo Estado, leia-se, pelos contribuintes. Dificuldades, na realidade, impossibilidade de encontrar uma boa oferta no pior momento que se podia escolher para alienar o banco, não só pelo quadro externo envolvente, mas também pela actuais más condições de exploração internas do banco. Dificuldades ainda porque o Estado está pressionado para vender e mostra ter pressa de o fazer, o que só debilita a sua capacidade negocial.
Por isso, não surpreende que não existam fortes candidatos à compra e que o principal concorrente não ofereça boas garantias de desenvolvimento do banco a médio e longo prazo e, porque é disso que se trata, queira ser pago ainda por cima.
Difícil decisão - mas certamente vender mal ou pagar para vender é que é seguramente a pior das escolhas. E também, com evidência, a que menos interessa ao sistema financeiro português.










