A proposta de novo Modelo de Supervisão Financeira apresentada pelo Ministério das Finanças com base no trabalho desenvolvido por um grupo de peritos está submetido a consulta pública até ao dia 20 de Outubro e devia merecer uma atenção generalizada e uma discussão publica muito alargada.
Evidentemente, o tema é árido, é tecnicamente exigente e por isso temo que seja pouco discutido e os pareceres enviados ao Governo, arrisco, contar-se-ão pelos dedos das duas mãos.
E, todavia, o assunto respeita a todos nós e afecta a nossa vida diária. Estou a exagerar? Evidentemente que não, se nos lembrarmos todos quanto o comportamento dos nossos bancos e dos banqueiros seus dirigentes nos afectou a todos, nos anos mais recentes. E, como também devia ser óbvio para todos, vai continuar a afectar se o Governo não deitar mãos ao modo como os bancos e os seus dirigentes são controlados e regulados e não lhes impuser "rédea curta".
Os alertas são, aliás, "universais" - basta ler os recentes livros de Stiglitz ou Kenneth Rogoff para se compreender exemplarmente como os bancos prejudicaram e continuam a prejudicar, enquanto as regras não forem mudadas, não só o desenvolvimento das economias e das sociedades mas também - e, porventura, sobretudo - os rendimentos dos depositantes.
Porque é disto que se devia tratar, quando se fala em reformar ou reformular o modelo de supervisão financeira em Portugal.
Para ser mais claro:
- Os bancos afectaram directamente o bolso das famílias ao delapidarem fortunas dos depositantes que canalizaram para aplicações desastrosas - é em primeiro lugar um problema de comportamento dos bancos e, como tal, um problema de "supervisão comportamental" dos bancos, isto é, um problema de regulação da actividade dos bancos.
- Os bancos afectam igualmente e de forma severa o bolso das famílias quando impõem contratos leoninos, desequilibrados nas suas cláusulas e garantias (em que as figuras do aval e da fiança têm significado a ruína de imensas famílias, apesar e qualquer que seja o nível de reembolso e de ganho financeiro já obtido pelos bancos nas respectivas operações de crédito) com custos excessivos em comissões, sobretudo no crédito à habitação, componente esmagadora do crédito concedido às famílias - é essencialmente um problema de supervisão comportamental e, evidentemente, um problema de regulação da actividade financeira.
- Ao desenvolverem uma politica de preços que é sobretudo determinada por razões de custos de funcionamento - onde se incluem custos exagerados de estruturas físicas desnecessárias e salários socialmente desproporcionados dos seus dirigentes máximos e intermédios (o primeiro semestre deste ano já evidencia um crescimento mais elevado dos salários das administrações nos bancos portugueses) - os bancos têm praticado comissões crescentes, muitas das quais abusivas e/ou ilegais, que prejudicam fortemente os interesses dos seus depositantes e clientes - é sobretudo um problema de supervisão comportamental, logo, de regulação de actividade, mas também e ao mesmo tempo, de supervisão prudencial.
- Ao praticarem políticas restritivas de crédito à actividade económica produtiva e às pequenas e médias empresas e/ou ao canalizarem os recursos dos depositantes e clientes preferencialmente para a aquisição de dívida pública e para emissões de acções e obrigações de grandes empresas, os bancos não estão a contribuir, como era seu dever principal, para o desenvolvimento equilibrado da economia - este é um problema de "supervisão geral do sistema financeiro e dos bancos e do seu enquadramento às políticas orientadoras do governo, em matéria monetária e do crédito".
- Ao concederem créditos de favor a grandes grupos ou empresários ou em excesso a empresas situadas em lógica de grupo com os seus accionistas ou ainda promovendo operações especulativas com investimentos de risco elevado e incerto (futuros, derivados, swaps, ...) os bancos não cumpriram com a sua dupla obrigação de garantia da segurança dos depósitos e de correcta política de fomento da economia, adulterando totalmente a sua função nobre de intermediação financeira que deveria levar à canalização das poupanças das famílias para o fomento equilibrado do desenvolvimento do país - é sobretudo um problema de supervisão de actividade, que deveria levar as autoridades centrais - leia-se, o Banco de Portugal, a CMVM e os Governos - a controlar as práticas creditícias dos bancos evitando os problemas que todos conhecemos, mas é também um problema de supervisão prudencial.
- Muitos mais exemplos poderiam ser acrescentados, mas em resumo e ainda, os erros apontados no modelo de supervisão financeira praticado em Portugal até agora afectam a distribuição de rendimentos e o crescimento futuro do País (o recente livro de Stiglitz, já referido, embora aplicado aos EUA, explica detalhadamente como), prejudicando as classes de depositantes com menos rendimentos e menor literacia financeira e privilegiando os rendimentos dos mais ricos e dos dirigentes superiores e intermédios dos bancos.
Ora, parece evidente para toda a gente, que qualquer reforma do sistema de supervisão financeira do país devia ter em atenção estas realidades. Porque são/foram realidades factuais - quem não se lembra do BPN, do BPP, do BES, do BANIF? E quem esquece as razões determinantes que levaram à passagem de mãos portuguesas para capitais estrangeiros do capital e do domínio do BCP, do BPI e do que resta do BES?
Em todos os casos, as políticas de crédito, as opções de investimento e as políticas salariais privilegiaram os interesses particulares, com a complacência, a tolerância e a omissão de intervenção atempada das autoridades de supervisão financeira.
Em todos os casos, as políticas de crédito, as políticas de preços e as políticas de canalização de poupanças para produtos especulativos e de risco elevado e não dominado foram praticadas em claro prejuízo dos clientes e dos depositantes, sobretudo dos que dispunham de menor literacia financeira - Onde estiveram as autoridades de supervisão financeira? E como foi possível que o modelo de supervisão financeira existente, em que os clientes e os depositantes tinham confiança absoluta, não tenha controlado as situações e impedido os horrores verificados?
Essas são as questões que o novo modelo de supervisão financeira devia responder, esses são os problemas que ele devia resolver, tais são os horrores que tem de evitar no futuro que sejam repetidos.
Infelizmente, não é isso que o modelo de supervisão financeira promete. Vou procurar explicar porquê num próximo e imediato artigo - mas recomendo, entretanto, a toda a gente que se debrucem sobre a matéria. porque ela afecta a vida diária de todos nós e ... porque certamente ninguém quer que a história recente se repita.