terça-feira, 23 de maio de 2017


A PERDA DE CONTROLO E DE PODER DE DECISÃO DE CAPITAIS PORTUGUESES NO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL

é também um problema de soberania, para além de poder ser um factor influente na definição das melhores condições de competitividade e de desenvolvimento futuro do país, numa economia cada vez mais global.
 
Evidentemente, "não se pode ter sol na eira e chuva no nabal" ... e não é possível rejeitar os benefícios duma crescente exposição externa do país - em especial em relação a Espanha, de quem somos cada vez mais uma província económica - e, ao mesmo tempo, evitar os riscos que lhe estão associados, em particular os da alienação de importantes centros de decisão nacionais.
Mas é preocupante reconhecer que em alguns dos sectores ou mercados estratégicos numa perspectiva nacional, mais globalizados e/ou mais expostos ao exterior - energia, telecomunicações, banca, sectores exigentes em investimento, em gestão e em inovação tecnológica - temos vindo a perder o domínio nacional, transferindo a capacidade de decisão para investidores, isto é, para interesses económicos e financeiros de outros países.
 
Não quero, porque sobejamente expostos, elencar as razões para tal.
Quero, antes e em particular, expor a evolução recente do sistema bancário nacional e a sua situação actual, evidenciando o peso dessa transferência de capitais e de poderes de decisão. Os gráficos seguintes traduzem de forma clara o que foi essa passagem de "soberania" para investidores externos.
A designada reestruturação e consolidação do sistema financeiro português e dos seus principais bancos (refiro-me à CGD, BCP, Santander Totta, BES/Novo Banco, BPI, Montepio e Banif e conto, para efeitos deste balanço, com a CGD e com o Montepio como os únicos verdadeiramente controlados  por centros de decisão nacional a partir de 2016) fez-se à custa da transferência, para centros de decisão externos ao país, da maior parte da poupança captada (em especial às famílias e em menor percentagem às empresas) e do crédito concedido (em montantes mais idênticos às empresas e às famílias). 
 
 
 
 
 
Esta passagem de controlo da maior parte dos volumes quer das poupanças captadas às famílias e às empresas quer dos créditos concedidos é agravada pelas características das distintas trajectórias de evolução dos respectivos bancos que integram um e outro grupo aqui considerados.
 
Compare-se para esse efeito a evolução de alguns dos indicadores dos bancos com maior peso no sector e dentro de cada um desses grupos:
 
- Hoje controlados por capitais nacionais:
 . Caso da CGD: a trajectória de evolução do banco público e ainda o maior do sistema é negativa, qualquer que seja o ângulo de análise, reflectindo a queda do negócio bancário e da sua rentabilidade, uma gestão deficiente e sem estabilidade, comercialmente pouco agressiva e demasiado sujeita às pressões políticas, e a dificuldade do acionista Estado mobilizar atempadamente os recursos necessários à sua capitalização, pressionado com tem estado pela necessidade de fazer face às suas próprias necessidades de tesouraria, resultantes de uma dívida crescente e de défices orçamentais anuais elevados.
    Desde 2010/2011 e até 2016, a CGD perdeu cerca de 11 mil milhões de depósitos e cerca de 23 mil milhões de créditos a clientes e o seu produto bancário no final desse período caiu para um terço do valor verificado nos anos iniciais. Nesse período, a CGD acumulou perto de 3,6 mil milhões de euros de prejuízos (é necessário recuar a 2009 para encontrar o último exercício de exploração positivo) e o volume de capitais próprios caiu de 7,8 mil milhões de euros em 2010 para 3,9 mil milhões em 2016.
    A produtividade por trabalhador em 2016, medida pelo rácio produto bancário por trabalhador é menos de metade da verificada no BCP e 70% da observada no Santander, com a agravante de revelar uma trajectória decrescente, ao contrário do verificado naqueles seus concorrentes.
Isto dá bem nota do tremendo desafio que a CGD e o seu accionista Estado enfrentam e de quanto urge racionalizar as suas condições de exploração, melhorar a sua cultura de gestão e a sua agressividade comercial, impor politicas e práticas criteriosas de avaliação de crédito e dotar o seu balanço dos equilíbrios adequados a uma estratégia de crescimento.
 
 
 
 
  Pelo contrário, como se pode ver nos gráficos seguintes, os seus actuais concorrentes mais directos, BCP e Santander, ambos com grande ou total dependência de investidores não nacionais, mostraram trajectórias mais positivas e/ou recuperaram mais cedo da crise que afectou todo o sector.
A CGD foi mesmo, nos indicadores referidos e de entre os maiores bancos operando em Portugal, o banco com pior performance ao longo desta crise iniciada em 2008/2009, enquanto o Santander Totta não teve um único exercício com resultados negativos ao longo do período.
 
 
 
 
 
    . No caso da Caixa Económica do Montepio Geral, actualmente o outro único banco exclusivamente com capitais portugueses e com uma quota de mercado da ordem dos 5% - 7%, a evolução é marcadamente negativa só a partir de 2013, mas numa proporção preocupante face ao contexto e à natureza accionista do banco e tendo em conta os níveis de capitais próprios e a dimensão do seu negócio. 
     Embora tenha perdido no quadriénio 2013-2016 "apenas" cerca de 10% quer nos volumes de depósitos quer de créditos, os juros recebidos e os juros pagos registaram quedas no intervalo 40% - 50%, levando a margem financeira a registar uma redução da ordem dos 30%. Este facto, aliado ao baixo nível de produto bancário por trabalhador, não permitiu acomodar a existência de imparidades com algum grau de desproporcionalidade, originando prejuízos acumulados nesse período superiores a 815 milhões de euros, que contrastam com um somatório de lucros de 176 milhões de euros no quinquénio anterior 2008-2012 e comparam com volumes de capitais próprios que vêm sendo reduzidos de 1,6 mil milhões de euros em 2012/2013 pata 1,3 mil milhões em 2015/2016.
 


 
 
Os dois únicos bancos de capital e controlo exclusivamente nacionais pesam hoje menos de 40% dos depósitos do sistema e pouco mais de 30% do crédito global concedido., contra percentagens que em ambos os casos se situavam no intervalo 86% - 90% há uma década atrás. 
Não é esta uma realidade preocupante?
E, como já se foi vendo, os bancos portugueses estão em trajectória decrescente enquanto os principais concorrentes registam saídas mais rápidas da crise e/ou não sofreram tanto as suas consequências negativas. 
No caso do Santander Totta, a evolução foi mesmo positiva e o banco foi capaz de reforçar a sua posição comparativa no mercado, não só "organicamente" mas também pela aquisição a baixíssimo custo da carteira de negócios de outro banco.

 
 
 
 
 
 
 
Os exemplos do BES/NOVO BANCO e do BPI reflectem naturalmente, embora com percursos diferentes, a prolongada crise depressiva dos últimos anos.
No caso do BPI, temos um dos bancos com mais baixa produtividade do sistema, medida pelo indicador produto bancário por trabalhador, mas com um percurso seguro traduzido na estabilidade da sua carteira de negócios e numa estabilidade das condições de exploração, que lhe permitiram, entre 2010 e 2016, acumular cerca de 600 milhões de euros de lucros e aumentar os capitais próprios em quase mil milhões de euros.
No BES/NOVO BANCO, está para se fazer a história rigorosa do que aconteceu. Mas deixo a sugestão de quem se interesse por estes temas começar por comparar as evoluções ao longo deste período do BES/NOVO BANCO e da CGD e de avaliar o que aconteceu a um e a outro.
 
 
 
 
 
Uma nota final, antes da conclusão, para realçar as diferentes realidades produtivas de cada banco, evidenciando as fraquezas dos bancos hoje em dia exclusivamente nacionais por comparação com a estabilidade ou crescimento das produtividades nos bancos controlados por interesses económicos de outros países. 
 
 
 Em síntese:
- Portugal perdeu, na última década e com a prolongada crise económica e financeira, o controlo do sector e do mercado financeiro nacional - se em 2005 os capitais portugueses controlavam entre 80% a 90% dos depósitos e do crédito, hoje em dia essas percentagens estão no intervalo 30% - 40%;
- os bancos hoje em dia controlados por capitais "estrangeiros" apresentam balanços mais equilibrados, produtividades superiores e melhores performances comerciais, expressas em maior estabilidade das suas carteiras de negócio e das suas condições de exploração;
- ao contrário, os bancos "nacionais" revelam trajectórias negativas e com agravamentos significativos nos últimos anos (a CGD foi o banco do sistema com pior performance entre todos os analisados)  tornando mais difícil competir com os seus concorrentes, melhor preparados para enfrentar os desafios já hoje presentes, neste virar de página da recessão que é cada vez mais visível.